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Segunda-feira, 22.09.08

 

O Poeta, assim o chama o Sonhador

nunca morou realmente nesta cidade

Também não é absolutamente verdade

que tenha pertencido ao que as pessoas chamam sociedade

com o ar mais patético possível

ou ao que quer que seja de parecido

com um clube literário 

 

Alguém, talvez mais do que uma pessoa

disse que não o podemos situar nesta cidade

nem neste país

que há qualquer coisa de universal em homens assim

 

O próprio Sonhador, que o chama respeitosamente e afectuosamente

o Poeta

sempre viu nele essa universalidade

e penso que foi isso que o fascinou mais do que tudo

 

O Poeta, diz o Sonhador, teve de se construir a si próprio

essa é que é a verdade

não foi só uma questão de descobrir personagens

e mestres e afinidades

foi muito mais do que isso

tratou-se de uma construção

de uma filosofia onde pudesse viver

 

Como conseguiu coexistir em si próprio

essas realidades incompatíveis, as dos outros e a sua

é que ainda não consegui perceber

 

O Sonhador chama-lhe personalidade múltipla

É certo que o sonhador, o meu querido amigo

vê coisas que desconheço totalmente

vê a realidade das coisas e das pessoas

ligada a imensas outras realidades

a imensos outros percursos

consegue relacionar tudo isso

 

O meu olhar é muito mais absoluto



 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:47

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Terça-feira, 16.09.08

 

Habituamo-nos aos nossos autores, aos nossos compositores

aos nossos realizadores, aos nossos amigos

aos nossos hábitos

 

Andamos de certo modo condicionados a determinados padrões

e nem damos por isso

 

Convencemo-nos, por qualquer razão

que somos pessoas abertas e tolerantes

que olhamos realmente e vemos

que estamos atentos e ouvimos

mas só vemos e ouvimos

aquilo para que estamos previamente preparados

para ver e ouvir

 

De vez em quando há uns abanões nessa calmaria

mas não passa disso

Fala-se então de equilíbrio

que tudo volta ao equilíbrio desejável

como uma lei da Física

Nada me arrepia mais do que essa palavra

adaptada às pessoas

e à vida e aos relacionamentos

Precisamos de situações inesperadas

que nos acordem realmente

 

Para escapar à tentação de hoje pegar nos meus autores

mas lá acabarei por cair

peguei num livro, Escrever, de Marguerite Duras

que encontrei num Inverno de 94...




 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:10

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Segunda-feira, 08.09.08

 

No fundo, guardamos em nós

essa capacidade de repetição de cenas

que já representámos de uma outra forma

num outro cenário

 

Mesmo que nos dêem instruções

para alterar isto ou aquilo

acabamos sempre por cair na nossa peça inicial

 

É como se fôssemos concebidos

de uma determinada matéria

que não aceita alterações exteriores

porque tem em si um papel para representar

Acredito profundamente nisso

 

As teorias da supremacia do meio

na construção de uma pessoa

nunca me impressionaram

 

Mesmo que mudem os cenários

a criatura já sabe o seu papel

Não se pode ver livre da sua própria composição

já está tudo definido





 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:37

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Quinta-feira, 04.09.08

 

Que novas personagens nos surgem agora

que as não conseguimos achar fascinantes?

 

Muito vistosas e  muito ruidosas, sim

Mas que pensamentos e sentimentos próprios de uma personagem

na sua individualidade e filosofia próprias

encontramos nestas novas personagens?

 

Sacrifica-se tudo ao grupo, foi isso que aconteceu

O grupo determina ditatorialmente a nova personagem

as novas regras do jogo, as novas atitudes

os novos discursos, as novas percepções

Sacrificou-se a pessoa

 

Onde é que podem surgir personagens fascinantes

na ausência de pessoas, por assim dizer?

Autómatos e marionetas, e tudo na roda-viva

dos pensamentos e sentimentos por encomenda

 

Estou perfeitamente convencida que o Filósofo viu isso tudo muito antes

Antecipou esta época, estas novas personagens

e a ausência de pensamentos e sentimentos próprios

 

Imagino o pesadelo que o Filósofo terá tido

quando visualizou por assim dizer esse cenário

Posso até imaginar a tentativa de situar esse cenário

na lógica intrínseca da sua teoria geral

sobre a evolução da espécie humana



 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:37








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